segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A RENOVAÇÃO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

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Nunca a história em quadrinhos americana foi de tão baixo nível como no início dos anos 50 e seus detratores já prediziam o seu próximo fim. Contudo, eles festejaram cedo demais por julgar mal a sua vitalidade e dinamismo. Seguindo a trilha traçada por George Harriman e Al Capp, e após diversa experiências infrutíferas, um antigo desenhista dos estudios Walt Disney chamado Walt Kelly criou em 1949 "Pogo", que devia revolucionar o estilo e o conteúdo da história em quadrinhos americana. A primeira vista, Pogo é uma série de pequenas fábulas ambientadas no pantanal georgiano de Okefenokee, e nas quais Kelly, a maneira de La Fontaine, “se serve de animais para instruir os homens”. Mas a medida que se vai lendo, esta definição torna-se cada vez mais insuficiente. Mais filósofo do que artista, Walt Kelly foi o primeiro a abordar as grandes questões morais, sociais e políticas de sua época. Isso lhe valeu numerosos inimigos, entre eles o Senador McCarthy, a quem ele atacou violentamente em 1952, pintando-o sob os traços de um chacal. Mas o trabalho de Kelly também gracejou-lhe o respeito e admiração dos intelectuais, contribuindo assim para a reabilitação da história em quadrinhos.

Kelly não tardou em encontrar um espírito irmão em Charles Schulz que com Peanuts (A Turma do Charlie Brown-1950) levou ainda mais longe a análise intelectual, orientando-se mais para a psicologia e a metafísica. Seus heróis não são animais e sim crianças na fase pré-escolar. Essas crianças raciocinam e agem como adultos, há situações em que a comédia é apenas um véu sobre a tristeza latente, a crueldade que se esconde sob o riso dão a Peanuts um caráter agridoce e uma sutil ambiguidade que as vezes é desconcertante. O sucesso de Peanuts foi instantâneo e mais brilhante que o de Pogo. Pelos seus esforços e talento, Kelly e Schulz conferiram aos comics o seu título de nobreza, e asseguraram o nascimento e desenvolvimento da história em quadrinhos intelectual.
Dentre outros artistas a desbravar esse novo mar de idéias estavam Mel Lazarus, que criou Miss Peach (1957), que contava a história das crianças da Escola Kelly e suas questões turbulentas. Em 1958 apareceu B.C. (Before Christ = Antes de Cristo) de Johnny Hart, apresentando uma incrível variedade de homens pré-históricos que passam a maior parte do tempo em sutis especulações sobre o progresso do mundo e o futuro da civilização. Muito semelhante a B.C. é a notavel parábola chamada Wizard of Id (1964) para a qual Brant Parker faz o desenho e Johnny Hart o texto. Nesta história encontramos um rei baixote, entediado e mau, que é atendido por um mago desabusado, um bufão quase sempre bêbado e um cavaleiro ardiloso. Ele reina sobre súditos arrogantes e trapaceiros. Cada qual despreza os demais e a si mesmo e apenas o mago e o bufão são, ás vezes, capazes de demonstrar humanidade.

Em 1956, a história em quadrinhos encontra o seu primeiro anti-herói na pessoa de Bernard Mergendeiler, um patético fracassado, devorado por tiques e complexos. Seu criador foi Jules Feiffer, autor de uma história intitulada simplesmente Feiffer. O universo de Feiffer é o mais negro e o mais depressivo jamais pintado pela história em quadrinhos. Jovens sem destino, mulheres neuróticas, amantes que se desconhecem, introduzem-nos num mundo de desumanidade em que toda a comunicação e troca de idéias são impossíveis, em que nada acontece e nada se faz. Paródia de uma paródia, Feiffer pode reinvidicar sem contestação o título de "primeira anti-história em quadrinhos".


Pesquisando mais profundamente, uma observação nos indica que, além do caráter filosófico, as histórias em quadrinhos intelectuais apresentam uma notável unidade estética. As afinidades de seus criadores seguem o mais rigoroso de todos os meios de expressão artística: o teatro. Não existem primeiros planos, longas falas ou espaços panorâmicos. Nós só sabemos que os personagens desejam falar deles mesmos e o único espaço que nos é permitido ver é aquele definido pelo retângulo do quadro. O cenário é apenas pano de fundo e sua feitura reflete o desígnio ou o estado de espírito de seus autores.
A estas histórias de avant-garde vieram se juntar outras mais. The Strange World of Dr. Mum, de Irving Philips, introduz-nos num mundo impessoal e desumanizado; Frank O'Neil se entrega a uma sátira mordaz de nossa civilização em Short Ribs, e Jerry Robinson, servindo-se apenas de objetos inanimados, oferece-nos em Still Life um comentário acerbo dos nossos costumes contemporâneos. Ao lado de tais histórias que abordam problemas dos mais espinhosos sob a máscara do humor e da fantasia, esse período viu nascer uma avalanche de histórias que sob seus extertores realistas refletem uma visão deliberadamente restrita e convencional do mundo.

Nasciam então as soap operas.

Estas histórias nos remetem as lacrimosas novelas e romances melodramáticos. A precursora e modelo do gênero foi Mary Worth´s Family, de Martha Orr. Nascida em 1932 como Apple Mary, ela teve um caráter populista que se harmonizava bem com o clima da grande depressão. Em 1940, Martha Orr deixou a história que foi retomada sob o título atual por Allen Sauders e Dale Connor, que assinavam pelo pseudônimo de Dale Allen. Essa série só tomou seu título em carater definitivo em 1947 com a saída de Dale Connor, substituído por Ken Ernst, que deu a Mary Worth suas inegáveis qualidades gráficas. Mas sob estas novas e brilhantes vestes, podemos reconhecer a trama gasta e os ouropéis do velho melodrama. Essa fórmula teve grande sucesso e levou o Publishers Newspaper Syndicate, uma filial das empresas Marshall Field criada pouco antes da guerra e distribuidora da história, a se especializar nesse gênero que os americanos apelidaram saborosamente de soap opera (traduzido como ópera de sabão).

Em 1948, Xavier de Montepin (antigo psiquiatra), Marvin Bradley e Frank Edgington (desenhistas), contam as lacrimosas aventuras do jovem médico Rex Morgan em Rex Morgan M.D. . Rex Morgan foi seguida por Judge Parker (1952), relatando casos de consciência que podem ocorrer a um escrupuloso magistrado em O Apartamento 3-G de 1962, que pinta as vicissitudes sentimentais de três garotas que moram num mesmo apartamento. Uma contribuição de valia ao gênero lacrimoso foi feita de 1953 por Stan Drake que criou para a K.F.S. (King Features Syndicate), a novela gráfica The Heart of Juliet Jones. As romanescas aventuras da heroína Juliet, eterna virgem, e de sua irmã Eve, são de natureza a comover até os corações menos sensíveis. O estilo de Drake é seguro, penetrante e atraente e seus roteiros não são mais absurdos que os outros do mesmo gênero.
Seria injusto colocar On Stage, a história criada por Leonard Starr em 1957, entre as “soap operas” das quais ela se aproxima pelas situações mas difere pelo estilo e pelo espírito. Mary Perkins, a heroína da história, é uma atriz, e isso permite a Starr pintar-nos os meios teatrais com uma pena muito firme. O ambiente, os cenários, os personagens são apresentados com muita verossimilhança mas seu realismo não exclui nem a poesia, nem o romantismo. A invenção e a originalidade dos roteiros, a precisão dos diálogos e a veracidade das situações fazem de On Stage uma das melhores histórias em quadrinhos da atualidade.

1 comentários:

  1. Anônimo disse...

    Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu

AMIGOS DA RAVENS HOUSE BRASIL

A HISTÓRIA DESTA HISTÓRIA TODA:

Quando decidi escrever um livro sobre as histórias em quadrinhos me veio a cabeça uma questão deveras intrigante.

Por quê escrever sobre um assunto que todo mundo já havia explorado!

O quê teria de original!

Pesquisando outras obras do assunto, acabei descobrindo que os melhores textos sobre os gibis estavam nas matérias das revistas especializadas ou nas seções de cartas. Uma coisa então estalou na minha mente e nada me impediu de acordar minha irmã-de-profissão às duas da manhã para fazer a seguinte proposta:

“Que tal escrevermos um livro só de curiosidades sobre os gibis.”

Depois de caminhar 17 Km de joelhos até o Juazeiro do Norte, consegui o terceiro componente para a construção do livro: o computador. Todos sabem que Rosana Raven não é jogo fácil de se lidar, mas aprender digitação em apenas uma semana equivaleu a milhares de Rosanas de realidades diferentes acarretando na aceleração molecular de minha calvície. Quando começamos finalmente a escrever, outro fato veio a tona: a ausência de material. A quantia de material adquirido e fatos requerentes aos quadrinhos renderia um gordo fanzine, mas estava longe de se tornar um livro. Novamente as brumas da preocupação baixaram sobre minha cabeça e mais alguns fios de cabelo se perdiam na escuridão...

Tudo parecia esvair-se até que a sapiência sagrada de R.Raven veio em meu auxílio, leve como uma bola de concreto: "É só colocar um breve resumo sobre a origem das histórias em quadrinhos, sua anta!". Então era isso!

Novamente o sol começou a brilhar e a construção desta demorada criatura foi iniciada com seu devido conteúdo, recolhendo material de diversas obras sobre o assunto e utilizando a máxima popular “copiar uma coisa é plágio, copiar várias é pesquisa”.
Sobre o conteúdo histórico do livro ser limitado aos anos 70-80 a explicação é simples; nesta fase os quadrinhos adotaram uma postura única que permaneceu até agora.

E o resto está no decorrer do livro... boa viagem!

IAM GODOY São Paulo, 21 de agosto de 2006.





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